Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Retrato

Não era muito alto e era magro

Os óculos grossos descansavam-lhe no nariz

A face e o rictus pesavam de raíz

Teimava com todos e com tudo

A perfeição é tão difícil de atingir

E querer chegar lá, sem jamais mentir

Não é impossível, é fado complicado

Cursava em Coimbra e trabalhava

Já tinha alunos a quem dava lições

Dizia-se que também dava sermões

ISTO está tudo mal, pá!

ISTO não é país!

ISTO está no final!

E atacava tudo nas suas canções

Não havia um senão

Neste país tudo eram frustrações

A LIBERDADE, pá

Onde é que ela está?

O pão? Poucos têm o seu quinhão

Estudar? Só para senhores

E filhos de doutores

ISTO está tudo mal, pá!

A canção que eu faço ataca

Mas não chega

ISTO não é PAÍS!

Sem LIBERDADE somos todos vis

Uma luz agora

Tu acreditas? EU NÃO!

ISTO só lá vai com um grande safanão

ISTO só lá vai se tudo fôr abaixo

Ditadores, bufos, pides

ISTO só com o POVO, REVOLUÇÃO

 

Isabel Sá Lopes 

Publicado por Isabel Sá Lopes às 17:16

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Outono

 

 

 

 

O vento atira-se às janelas

As árvores estremecem, tremem

Abanam sem parar

Lançar sombras fantasmagóricas

Alteram a aparência do lugar

O vento sopra, uiva, extenuado

Lança-se contra a pele, infeliz, arrepiado

As folhas balançam, desiquilibram-se

Tentam agarrar-se, viver

São arrancadas cerce, vão morrer

Tapetes castanhos, amarelo-avermelhados

Enchem as ruas, os jardins, as matas

Os pés levantam, arrastam

Esse manto belo, morto

E de súbito uma rajada

Estilhaça, espalha pelo ar

A dançar, a dançar

Folhas desenhadas com arte

Folhas enroladas por dedos mágicos

Côr e mais côr a rodopiar

A pena de não ter uma máquina

Para as agarrar e fixar

Pelas frinchas infiltra-se forte o frio

Nas nuvens negras a água pesa já

Em pouco tempo vai desabar

A Terra sedenta vai consolar

MAS A MIM NÃO

Faz-me falta o calor, a LUZ

A Festa do VERÃO.

 

Isabel Sá Lopes

 

Publicado por Isabel Sá Lopes às 17:00

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Amizade

Amizade

 

Estou aqui. Estou com vontade de não estar.

Lá fora vento, vento frio desabrido

Cabelos em farripas no ar

Gente abafada, agasalhos rentes ao pescoço

O alvoroço, de correr para casa

O desejo de não se constipar

Fugir à gripe e à rinite

Eu sinto o mesmo e fico

Por mim já me tinha ido embora

Por mim que não gosto de esperar

De estar só, do mau tempo

Eu que detesto o vento

Faz-me mal

É sempre um mau sinal

Do vento frio nada de bom espero

Desespero quase sempre

Será desta vez diferente

Estou aqui e este facto em si

Explica a Amizade

Isto não é bondade

Nem paciência, nem dormência

Isto é gostar de ver,

de comunicar, de saber

Se dou, recebo mais

O que dou e recebo nunca é demais

A vida sem isto pouco vale

O amigo não nos pede nada

Não nos dá notícias más

Não viramos as costas e zás

O amigo sossega o coração

E sempre estende a mão

Por isso eu estou aqui

Apetecendo-me ir embora

Não vás. Tu és capaz

Não vou. Aqui estou.

 

 

Isabel Sá Lopes

Publicado por Isabel Sá Lopes às 16:36

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