Domingo, 27 de Julho de 2008

Estou Cansado

 

 

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Publicado por Isabel Sá Lopes às 18:52

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Dobrada à Moda do Porto

 

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,

Nunca se pode comer frio, mas veio frio
 
Publicado por Isabel Sá Lopes às 18:37

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Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Viajar

 

Sou Portugal
Viajar é o meu sangue
O Mar está ali a olhar para mim
E eles, os Portugueses lá foram
Vagas fortes, simples caravelas
Comidas toscas, parcas
O estômago vazio
Doenças várias
Horríveis
O corpo cheio.
Quando o mundo instalado
Se sentava ao pé da porta
Eles, os Portugueses, e o mar
Abalaram sem saber
Que paragens tão além
Prontos a conhecer as gentes
Para lá da espuma, dos cabos
Da linha do horizonte
Apetrechos inventados,
Porque necessários
À fuga à terra,
À busca da outra terra
Sou Portugal
Viajar é o meu sangue
O céu está aqui a olhar para mim
E eles, os Portugueses, lá foram
Pelo ar
Em aves voadoras, timoratas
A atravessar ares e mares
Aos arrancos, solavancos
Sobressaltos
Aos assaltos destemidos
À aventura
Ao prazer
À fama
E ao mundo instalado
Almas assentes na terra.
Sou Portugal
Viajar é o meu sangue
Encontrado
Espalhado
Multiplicado
Pelo mundo
Sou Portugal
O mar é o meu sangue
O horizonte, o olhar.
Publicado por Isabel Sá Lopes às 18:48

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Eu gosto da cidade.

 

 

Eu gosto da cidade
Cada canto, cada esquina
Cada pranto, cada velho
Alvoroço, cada moço
Que corre, atropela
Para cá e para lá
Olá, como está?
Eu gosto da Cidade
Que tem alma
Da gente que a percorre
Do desconhecido, conhecido
Do amigo atrás de quem se vai
Do amigo do qual tudo se quer
Eu gosto da Cidade
E do prazer de cada madrugada
Sair de casa alada
E atirada à Vida
Amada e mais amada
Vivida e convivida
Eu gosto da Cidade
A gente em fila, o rio
O burburinho, o falar, pássaros a chilrear
Algazarra, multidão, o mar em fúria
Azulejo em cada monumento, beleza e arte
De uma seara ao vento
Criança tenra e terna em seu palrar
É verde, tão verde de encantar!
Eu gosto d’Eça
Eu gosto da Cidade
Mas não das Serras
Com essa intensidade
Eu gosto da Cidade
Que tem Alma
Eu gosto da Cidade
Que me acalma.
Publicado por Isabel Sá Lopes às 18:20

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Ler, Mãe

 

Ler aos seis
Era prazer já
Ler às seis
 Madrugadas frias
Escorregar devagar o corpo
Alma inebriada, quente
Das seis às sete
Corpo frio, luz difusa, calada
Assento duro, escuro
Alma arrebatada, alada
 Vidas, histórias lidas
Acantonada a uma janela
Com o sol dolente a inundar
Luar
Sol
Eu saber
Eu sentir
Dor, Amor
Só, acantonada
Tão acompanhada
Ler era o meu estudo
Ler era o meu escudo
Ler aos onze, doze
Ler aos treze, catorze
Ler, puro prazer
Sem cansaço, sem conforto
Sem tédio, sem tristeza
A beleza das palavras
Juntinhas pelas linhas
Palavras agarradas pelas ideias
Serpenteando pelas teias
Aranhadas, emaranhadas
Difusas confusas
Difíceis tácteis
Palavras mágicas, musicais
Palavras sensuais
Eu, de Alma vibrante
Esplendorosa, triunfante
Como o Sol a vencer a Lua
Ia vencer o dia
Não haveria nada
Que ensombrasse essa Alegria
Ler é meu
Ler é teu, tão teu, Mãe
Ler és tu e eu
Ler sou eu.
 
 
Publicado por Isabel Sá Lopes às 17:14

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